Capítulo 2

Preços e rendas: a escala do problema

+17,6% em 2025. Preços contra salários, rendas de novos contratos e Portugal na Europa.

Jorge Alexandre PereiraAtualizado a

Telhados e prédios de Lisboa densamente agrupados; ao fundo, o Tejo, a Ponte 25 de Abril e o Cristo Rei.
Imagem ilustrativaLisboa vista do Miradouro dos Barros.
Neste capítulo
  • Os preços da habitação subiram 17,6% em 2025, a maior subida anual da série do INE, e 16,5% no 2.º trimestre de 2026, face ao ano anterior.
  • Entre 2015 e 2025 o índice de preços subiu 164% em médias anuais, contra 53% na zona euro. Só a Hungria subiu mais na UE.
  • Face ao salário médio por trabalhador, as casas ficaram cerca de 84% mais caras desde 2015.
  • A renda mediana dos novos contratos mais do que duplicou desde 2017, de 4,39 para 9,50 €/m².

A subida de 2025

Os preços da habitação subiram 17,6% em 2025, a maior subida anual da série do INE: 18,9% nas casas usadas e 14,2% nas novas. Venderam-se 169 812 casas, por 41,2 mil milhões de euros, o valor mais alto da série.

A subida abrandou pouco em 2026: +17,8% no 1.º trimestre e +16,5% no 2.º, face ao mesmo trimestre do ano anterior, com menos transações.

+17,6%

preços da habitação em 2025, a maior subida da série

Dado oficialINE · IPH

+164%

preços entre 2015 e 2025, em médias anuais; zona euro: +53%

Dado oficialEurostat

9,50€/m²

renda mediana dos novos contratos (12 meses até março de 2026)

Dado oficialINE

Portugal na Europa

Em 2013, no fim do programa de assistência, os preços estavam 13% abaixo de 2010. Desde então, Portugal teve uma das subidas mais rápidas da Europa: o índice de 2025 está 2,6 vezes acima do de 2015. O Eurostat coloca Portugal em 2.º lugar na UE, com +180% entre 2015 e o fim de 2025, depois da Hungria.

Preços da habitação: Portugal e a Europa, 2010–2025

Índice de preços da habitação · média anual · 2015 = 100

Descarregar CSV
  • Portugal
  • Zona euro
  • Espanha
  • Hungria
  • Outros comparadores

Dado oficial Eurostat, prc_hpi_a (01-10-2026). Hungria 2025 provisório.

Médias anuais: +164% em Portugal entre 2015 e 2025. Os +180% citados pelo Eurostat comparam o 4.º trimestre de 2025 com a média de 2015.

Dois números para a mesma subida

Os +180% do Eurostat comparam o 4.º trimestre de 2025 com a média de 2015. Comparando médias anuais, 2025 face a 2015, a subida é de +164%. O FMI cita +169%, com dados até ao 3.º trimestre de 2025. É o mesmo índice, medido até momentos diferentes.

Preços contra salários

A remuneração bruta média por trabalhador era de 1505 € em 2023 e de 1694 € em 2025. Face a cerca de 1179 € em 2015, subiu cerca de 44%. No mesmo período, o índice de preços da habitação subiu 164%. Dividindo um pelo outro, uma casa custa hoje cerca de 84% mais anos de salário do que em 2015. Cálculo próprio

Preços da habitação e salário médio, 2015–2025

Índice · 2015 = 100 · salário só nos anos com valor conhecido

  • Preços da habitação (Eurostat)
  • Remuneração bruta média por trabalhador

Dado oficial Eurostat (preços); INE e Governo (salários). Cálculo próprio para o índice salarial.

O salário de 2015 é derivado da variação publicada até 2023 e está por confirmar na tabela do INE. Os anos sem valor não são interpolados. É um salário por trabalhador, não o rendimento das famílias.

O que isto não prova

É um salário por trabalhador, não o rendimento das famílias, que pode juntar dois salários e outras fontes. O valor de 2015 é derivado e está por confirmar na tabela do INE (registo V01). O rácio mostra a direção e a ordem de grandeza, não a taxa de esforço de uma família concreta.

Prédios de habitação de Lisboa com telhados de telha e varandas com roupa estendida.
Prédios de habitação em Lisboa.

Rendas

A renda mediana dos novos contratos de arrendamento era de 4,39 €/m² em 2017. Nos 12 meses até março de 2026 foi de 9,50 €/m², em 149 690 contratos: mais 116%. Em Lisboa (concelho), a mediana do 1.º trimestre de 2026 foi de 17,42 €/m², mais 8,2% do que um ano antes.

Nota de série

Em 2026 o INE iniciou uma série nova, desde 2020, com dados da Autoridade Tributária, que cobre cerca de 50% mais contratos. O INE indica que, no período comum, a mediana por m² não muda de forma significativa. A comparação com 2017 atravessa as duas séries e deve ler-se como indicativa.

Porque subiram tanto

Um estudo do Banco de Portugal deteta sobrevalorização dos preços desde 2017 e conclui que, ao contrário de Espanha, a oferta não conseguiu compensar a pressão da procura. O FMI considera os desequilíbrios estruturais, não cíclicos: escassez de construção, baixa produtividade do setor, licenciamento lento e limitações do arrendamento. O crédito não foi o motor principal: o crédito novo representa cerca de metade do valor das transações.

Argumentos contrários

  • Os preços partiram de um nível baixo: em 2013 estavam abaixo de 2010. Parte da subida é recuperação.
  • A média nacional esconde diferenças grandes entre Lisboa, Porto e Algarve e o resto do país.
  • Os rendimentos das famílias podem ter crescido mais do que o salário médio por trabalhador, porque o emprego também aumentou.