Capítulo 6

Outros fatores que não se podem ignorar

Alojamento local, habitação pública, casas vagas, crédito, licenciamento e arrendamento.

Jorge Alexandre PereiraAtualizado a

Vista aérea ao entardecer das casas brancas de Carvoeiro, sobre a falésia e a praia.
Imagem ilustrativaCarvoeiro, no Algarve, ao fim do dia.
Neste capítulo
  • O alojamento local concentra-se nos centros históricos; havia cerca de 125 mil registos em 2025, mais de 40 mil inativos.
  • A habitação pública é cerca de 2% do parque, das mais baixas da Europa.
  • As medidas recentes de apoio à compra acrescentam procura num mercado sem oferta.
  • Mesmo sem imigração, os agregados mais pequenos pedem mais casas para a mesma população.

Turismo e alojamento local

Existiam cerca de 125 mil registos de alojamento local em 2025, dos quais mais de 40 mil inativos, a eliminar. Lisboa tinha 18 600 e o Porto 10 600. O impacto concentra-se nos centros históricos, onde o alojamento local retirou casas ao arrendamento de longa duração.

O programa Mais Habitação, do governo Costa, travou novos registos em 2023. O governo Montenegro devolveu a decisão aos municípios com o Decreto-Lei 76/2024, em vigor desde novembro de 2024, que levantou a suspensão geral. O efeito no número de registos ainda não está medido (registo V11).

Quase não há habitação pública

A habitação pública é cerca de 2% do parque, um dos valores mais baixos da Europa, resultado de um desinvestimento de sucessivos governos. Sem um parque público relevante, o Estado não tem como amortecer choques de procura. Os organismos públicos concluíram 401 casas novas em 2011, 10 em 2024 e 53 em 2025.

Casas novas concluídas promovidas por organismos públicos

Fogos em construções novas para habitação familiar · número · 2011–2025

Dado oficial INE (0013249), por entidade promotora.

A Nova Geração de Políticas de Habitação, de 2018, fixou a meta de passar de 2% para 5% do parque. O seu principal programa, o 1.º Direito, tinha até ao fim de 2025 18 778 casas concluídas, cerca de 85% reabilitadas, e só 2401 entregues às famílias.

Políticas do lado da procura

O governo Montenegro isentou de IMT e Imposto do Selo os jovens até 35 anos, nas compras desde agosto de 2024, e criou uma garantia pública para o crédito à habitação dos jovens. A garantia começou com um teto de 1,2 mil milhões de euros e foi reforçada até 2,3 mil milhões, para contratos até ao fim de 2026.

O FMI recomendou retirar a garantia, por acrescentar procura, e o Banco de Portugal conclui que a crise não se resolve com políticas do lado da procura. É a crítica mais sólida que se pode fazer ao governo atual, e não depende da herança dos governos anteriores. Análise do autor

Juros, crédito e agregados mais pequenos

Os juros quase nulos de 2015–2021 alimentaram a valorização; a subida de 2022–2023 travou-a pouco tempo. O FMI considera que o crédito não foi o motor principal, mas o crédito à habitação cresce acima da zona euro desde 2023, e a guerra com o Irão reabriu a perspetiva de subidas de juros em 2026.

A dimensão média dos agregados caiu de 2,6 pessoas em 2011 para 2,5 em 2021, e cerca de um milhão de pessoas vive sozinha. Mesmo sem imigração, Portugal precisaria de mais casas para a mesma população.

Arrendamento e casas fora do mercado

A revisão da lei do arrendamento de 2012, do governo Passos Coelho, liberalizou as rendas; as alterações de 2019 e 2023, do governo Costa, reforçaram a proteção dos inquilinos e limitaram atualizações. Senhorios e promotores citam a mudança constante de regras como razão para retirar casas do mercado. A evidência sobre o efeito no número de contratos ainda está por reunir (registo V12).

Rua calcetada de Alte com casas brancas de barras vermelhas, ao sol do fim da tarde.
Alte, aldeia do interior algarvio.

Os Censos 2021 contaram 723 215 alojamentos vagos e 1 104 881 de uso sazonal ou secundário. Só uma parte das casas vagas está em boas condições e nas zonas onde há procura: muitas ficam no interior, degradadas ou presas em heranças. Quantas estão em bom estado nas áreas metropolitanas é uma pergunta ainda sem resposta (registo V13).

Casa de madeira com riscas verticais azuis e brancas, com varanda, sobre calçada.
Casa de praia às riscas, ao estilo da Costa Nova. Local por confirmar.

Argumentos contrários

  • O alojamento local também recuperou edifícios degradados nos centros históricos, que de outra forma continuariam vazios.
  • Os apoios à compra para jovens respondem a um problema real de acesso ao crédito; o efeito nos preços depende de quanto a oferta consegue responder.