Capítulo 4

Imigração: um choque de procura num mercado sem oferta

Stock e fluxo, regularizações e sobrelotação. O que os dados permitem e não permitem concluir.

Jorge Alexandre PereiraAtualizado a

Casario do Porto visto da margem de Gaia, com o rio Douro e o teleférico em primeiro plano.
Imagem ilustrativaO Porto visto de Vila Nova de Gaia.
Neste capítulo
  • A população residente cresceu 824 914 pessoas entre o fim de 2021 e o fim de 2025; quase todo o crescimento é imigração.
  • No mesmo período concluíram-se 95 294 casas novas.
  • Os estrangeiros residentes passaram de 748 155 para 1 597 539, 14% da população.
  • O saldo migratório caiu de 371 mil em 2022 para 71 mil em 2025.

A escala

No fim de 2025 viviam em Portugal 11 424 031 pessoas, das quais 1 597 539 estrangeiras, contra 748 155 no fim de 2021. Os saldos migratórios foram de 371 mil em 2022, 307 mil em 2023, 217 mil em 2024 e 71 mil em 2025. A procura demográfica está a abrandar, mas acumulou-se durante quatro anos.

População estrangeira residente em Portugal, 2021–2025

Pessoas a 31 de dezembro · série revista de base administrativa

Dado oficial INE, Estimativas de População Residente 2025 (22-06-2026).

Não se compara com os Censos 2021 nem com as estimativas até 2020. A AIMA publica uma série diferente, que não deve ser combinada com esta. Os valores de 2025 podem ser revistos.

Duas séries que não se misturam

A AIMA contava 1 543 697 estrangeiros residentes a 31 de dezembro de 2024; o INE estima 1 538 426 para a mesma data. São séries diferentes e não se combinam. O INE reconheceu dificuldades na transmissão dos dados da AIMA, por isso os valores de 2025 podem ser revistos.

A aritmética da habitação

Com a dimensão média de 2,5 pessoas por agregado, 825 mil residentes a mais equivalem a cerca de 330 mil agregados. No mesmo período concluíram-se 95 294 casas novas. Cálculo próprio

Novos agregados e casas novas, 2022–2025

Por ano · agregados = aumento da população ÷ 2,5 pessoas (ilustrativo) · casas = fogos novos concluídos

  • Agregados equivalentes (ilustrativo)
  • Casas novas concluídas

Cálculo próprio a partir do INE (estimativas de população 2025; obras concluídas, 0013249). Dimensão média dos agregados: Censos 2021.

Não é uma medição de casas necessárias: os imigrantes vivem em média em agregados maiores, e parte da procura vai para o arrendamento de quartos.

O que isto não prova

Não é uma medição de casas necessárias. Os imigrantes vivem em média em agregados maiores, o que reduz o número de casas equivalentes, mas não o sentido da comparação. Parte da procura não se transforma em casas: transforma-se em quartos arrendados e em sobrelotação.

Casario antigo e colorido da Ribeira do Porto, junto ao rio Douro, com barcos rabelos atracados.
A Ribeira do Porto, junto ao Douro.

Para onde vai a pressão

Em 2023, 23,8% dos cidadãos não europeus a viver em Portugal estavam em casas sobrelotadas, contra 10,8% dos nacionais. O arrendamento de quarto ou cama tornou-se comum nas áreas metropolitanas. E a pressão já chega à compra: estrangeiros com domicílio fiscal em Portugal compraram 34 838 casas em 2025.

O Banco de Portugal estudou cerca de 300 municípios entre 2017 e 2024. Estima que um aumento de 1% da procura, medida pelo número de agregados, eleva os preços entre 0,52% e 0,64% e as rendas entre 0,28% e 0,34%, com efeitos maiores onde a oferta é mais rígida, como Lisboa e o Porto. O estudo não isola o contributo da migração: refere-a entre os fatores da procura.

Stock e fluxo: o que dizem os números

A manifestação de interesse, que permitia regularizar quem já trabalhava em Portugal, nasceu em 2017 e foi alargada em 2019, com governos PS. Foi extinta pelo governo Montenegro em junho de 2024.

Os 1,54 milhões de estrangeiros são um stock, não as entradas de um governo. Incluem cerca de 400 mil que já cá viviam antes de 2017, cidadãos da UE com livre circulação, cerca de 61 mil beneficiários de proteção temporária da Ucrânia e processos pendentes tratados depois de 2024. Em maio de 2025 a AIMA tinha analisado cerca de 440 mil pendentes: cerca de 170 mil foram arquivados e cerca de 130 mil aguardavam decisão. Os 286 mil frequentemente citados são atendimentos, não autorizações.

A formulação defensável é esta: a maior parte do aumento de 2017–2024 resulta de entradas ocorridas sob governos PS e de regimes por eles criados, parte dela regularizada depois. Análise do autor

Argumentos contrários

  • Os preços já subiam antes da vaga migratória: o Banco de Portugal deteta sobrevalorização desde 2017, quando havia 422 mil estrangeiros.
  • Os imigrantes também são oferta: uma parte importante da mão de obra da construção é estrangeira. Menos imigração sem mais trabalhadores no setor reduz também a capacidade de construir.
  • Os Censos 2021 contaram 723 215 alojamentos vagos e 1 104 881 de uso sazonal ou secundário. Muitos estão no interior, degradados ou em heranças por resolver.